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Ao contrário de muitas outras dores, a enxaqueca continua a esconder-se atrás de um nome que soa a queixa comum. E é, de facto, uma queixa comum, já que cerca de dois milhões de portugueses vivem com enxaqueca.
Uma doença que impede o funcionamento normal
No entanto, a dimensão do problema não se traduz em visibilidade e tratamento. Pelo contrário. Segundo o estudo “Enxaqueca nas Mulheres — O Padrão Hormonal Invisível”, da Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias, 33 por cento das mulheres com sintomas compatíveis nunca consultou um médico. Além disso, 42 por cento nunca recebeu um diagnóstico médico. Por fim, 72 por cento recorrem à automedicação.
É como se esta doença neurológica crónica não tivesse a possibilidade de incapacitar por completo. Ou seja, como se não fosse aquilo que verdadeiramente é: um problema que condiciona, que limita, que impede o funcionamento normal.
Tratar a enxaqueca apenas como uma dor de cabeça é reduzi-la a um incómodo passageiro. Contudo, os números mostram outra coisa bem diferente. Na verdade, ainda de acordo com o mesmo estudo, 92 por cento das mulheres com enxaqueca confirmam que as crises as impediram de trabalhar, de estudar ou de cumprir as suas tarefas diárias durante, pelo menos, um dia inteiro.
Adaptar-se à enxaqueca em vez de a resolver
Estamos a falar de uma condição que se pode manifestar como uma dor moderada a forte, pulsátil ou latejante. Além disso, acompanham-na muitas vezes náuseas e vómitos, bem como uma maior sensibilidade à luz, ao ruído e aos cheiros.
É um problema que não desaparece sozinho, porque persiste no tempo sob a forma de episódios recorrentes. Assim, muitos normalizam o que sentem. Mais do que isso, adaptam-se à doença em vez de procurar formas de a resolver.
Quando procurar ajuda médica
Como? Antes de mais, consultando um especialista. Na presença de crises recorrentes, quando a frequência ou a intensidade aumentam, quando os sintomas interferem com o trabalho, os estudos ou a vida familiar, quando é necessário recorrer frequentemente a medicação ou quando se sente dificuldade em controlar as crises, a procura de ajuda médica não é exagerar.
Portanto, é o único caminho para perceber o que está por detrás da dor. Depois, permite distinguir a enxaqueca de outros tipos de cefaleia e definir o tratamento certo para cada pessoa.
Sem diagnóstico não há tratamento dirigido
Quebrar o ciclo da dor e libertar-se da prisão que é a enxaqueca começa pelo diagnóstico. Todavia, esse diagnóstico continua a chegar tarde ou a não chegar de todo, como mostram os dados já referidos.
Sem diagnóstico, não há tratamento dirigido. Em seguida, resta apenas a gestão de uma dor feita à base de automedicação, com enormes custos pessoais e para a sociedade. E é essa ausência de resposta clínica, mais do que a doença em si, que transforma a enxaqueca numa condição em que se sofre em silêncio, em vez de uma condição que se trata.
Filipe Palavra, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias
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