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Doença hepática alcoólica: repensar escolhas no janeiro sem álcool

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O início de um novo ano é, para muitas pessoas, um momento privilegiado para refletir sobre hábitos e assumir novos compromissos com a saúde. É neste contexto que surge o movimento “Janeiro Sem Álcool”, um desafio que propõe uma pausa temporária no consumo de bebidas alcoólicas. Num país onde o vinho e outras bebidas fazem parte da identidade cultural e social, parar para pensar sobre o impacto do álcool no organismo não é apenas oportuno, é essencial.

Entre os órgãos mais afetados pelo consumo regular de álcool encontra-se o fígado, responsável pela metabolização desta substância. Quando sujeito a quantidades excessivas ou a um consumo frequente, o fígado inicia um processo de acumulação de gordura conhecido como esteatose hepática, considerada a fase inicial da doença hepática alcoólica.

Esta condição é frequentemente silenciosa. Não provoca dor nem sintomas imediatos e, por isso, pode ser facilmente ignorada. No entanto, a ausência de sinais não significa ausência de risco. A esteatose hepática alcoólica pode evoluir para formas mais graves da doença, com inflamação persistente, desenvolvimento de fibrose e, em fases avançadas, cirrose, comprometendo de forma irreversível a função hepática.

O desafio do “Janeiro Sem Álcool” surge, assim, como uma oportunidade concreta para experimentar os benefícios de uma pausa. São numerosos os testemunhos de pessoas que referem melhorias na qualidade do sono, no bem-estar geral, na digestão e nos níveis de energia após algumas semanas sem consumo de álcool. Cada dia de abstinência representa um passo relevante no processo de regeneração do fígado e na melhoria da saúde global.

É verdade que o álcool continua a estar presente em celebrações e momentos de convívio. Ainda assim, moderação não significa abdicar da vida social. Significa, antes, consciência. Saber escolher, estabelecer limites e compreender que a saúde deve ocupar um lugar central nas decisões do dia a dia. Atualmente, existem alternativas cada vez mais diversificadas, como cocktails sem álcool ou bebidas “zero”, que permitem manter o espírito de celebração sem comprometer a saúde hepática.

Janeiro pode, por isso, ser o ponto de partida para uma relação mais equilibrada com o álcool ao longo de todo o ano. Não se trata apenas de cumprir 31 dias sem bebidas alcoólicas, mas de repensar hábitos e reconhecer que pequenas mudanças podem traduzir-se em ganhos significativos para a saúde.

Consciencializar para os riscos da doença hepática alcoólica é um passo fundamental na promoção de estilos de vida mais saudáveis. Se o período festivo foi tempo de celebração, o início do ano pode e deve ser tempo de cuidar do fígado, garantindo mais anos de vida com qualidade e saúde.

Patrícia Queirós, médica gastrenterologista no serviço de Gastrenterologia da Unidade Local de Saúde do Algarve

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