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As hepatites virais assinalam a 28 de Julho o seu Dia Mundial. A data homenageia Baruch Blumberg, o cientista que descobriu o vírus da hepatite B e que recebeu o Prémio Nobel da Medicina. O termo hepatite designa, genericamente, uma inflamação do fígado. Trata-se de um nome simples para uma realidade que pode tornar-se muito complexa.
Esta inflamação tem causas diversas. Entre elas contam-se o álcool, as doenças autoimunes, a acumulação excessiva de gordura ou determinados medicamentos. Contudo, os vírus destacam-se pela sua frequência e pelo impacto mundial. Dentro das hepatites víricas, os vírus B e C assumem maior relevância. Ambos podem evoluir para doença crónica e progredir silenciosamente para formas graves. Entre estas encontram-se a fibrose avançada, a cirrose, a insuficiência hepática e o aumento do risco de cancro do fígado.
A Organização Mundial de Saúde definiu a eliminação das hepatites B e C como ameaça à saúde pública até 2030. Para tal, fixou duas metas principais: reduzir as novas infecções em 80% e a mortalidade em 65%. Consequentemente, é preciso agir em três frentes distintas.
Prevenir: conhecer as vias de transmissão
Conhecer as formas de transmissão é um dos passos mais importantes. No caso da hepatite B, a via mais comum é o contacto sexual desprotegido. Além disso, o vírus transmite-se pela partilha de objectos de uso pessoal com vestígios de sangue. Escovas de dentes e lâminas de barbear são exemplos frequentes.
A transmissão ocorre igualmente através de agulhas, seringas ou instrumentos mal esterilizados. Estes podem surgir em contexto médico, dentário, de tatuagens ou de piercings. Por fim, existe ainda transmissão de mãe para filho durante o parto.
A hepatite C transmite-se essencialmente pelo sangue. Basta uma quantidade mínima de sangue contaminado para o vírus passar de uma pessoa para outra. Os principais veículos são a partilha de seringas e de instrumentos cortantes ou perfurantes não esterilizados. Qualquer ferida em contacto com sangue infectado representa risco. Em contrapartida, a transmissão sexual é rara.
Importa realçar um ponto essencial. Nenhum destes vírus se transmite por contactos sociais quotidianos. Partilhar refeições, dar um abraço ou um aperto de mão não representa qualquer risco.
Não existe ainda vacina para a hepatite C. Contudo, a vacina contra a hepatite B existe, é segura e é eficaz. Em Portugal, está incluída no Plano Nacional de Vacinação desde 1994.
Diagnosticar: uma análise simples pode fazer a diferença
Contraída a infecção, importa fazer um diagnóstico tão precoce quanto possível. Sabe-se que uma parte significativa dos infectados desconhece que tem a doença. Muitos nunca foram rastreados; outros nunca apresentaram sintomas.
Uma simples análise ao sangue é suficiente. O Programa Nacional para as Hepatites Virais preconiza a inclusão da análise ALT (alanina aminotransferase) na avaliação global de saúde. Além disso, propõe a realização do teste da hepatite B e C pelo menos uma vez na vida.
Tratar: a hepatite C é hoje curável
O tratamento evoluiu de forma notável nas últimas décadas. A hepatite C é actualmente uma doença curável. O tratamento faz-se com comprimidos durante oito a doze semanas. Deste modo, o vírus é eliminado em mais de 95% dos casos.
Na hepatite B, o cenário é diferente. Não existe hoje um tratamento que elimine completamente o vírus. Ainda assim, existem medicamentos que o controlam de forma muito eficaz. Por conseguinte, o risco de lesão do fígado diminui significativamente.
Quando a inflamação se prolonga no tempo
Quando a inflamação do fígado se mantém durante muitos anos, o tecido saudável é progressivamente substituído por tecido cicatricial. A esse processo chama-se fibrose. À medida que a cicatrização aumenta, o fígado perde a capacidade de desempenhar as suas funções normais.
Nos casos mais avançados desenvolve-se cirrose. Esta pode originar complicações graves, desde a acumulação de líquido abdominal — a ascite — até ao cancro do fígado. Todavia, a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento alteram drasticamente este percurso.
Portugal como referência internacional
Portugal criou o Programa Nacional para as Hepatites Virais em 2016. Actualmente, o país é apontado como exemplo internacional de boas práticas nesta área.
Neste 28 de Julho, a mensagem é simples. Conhecer as hepatites é o primeiro passo para as prevenir. Uma vacina pode evitar uma doença grave. Um teste simples pode fazer a diferença. Fale com o seu médico.
Informação adicional sobre o Dia Mundial das Hepatites está disponível no portal da Organização Mundial de Saúde.
Por Dra. Suzana Calretas, coordenadora do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI)





