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Num país onde o sol faz parte da nossa identidade e do nosso quotidiano, seria expectável que a insuficiência de vitamina D fosse uma excepção. A realidade, porém, é bem diferente.
Um estudo representativo da população portuguesa mostrou que cerca de dois em cada três adultos apresentam níveis séricos de vitamina D inferiores a 20 ng/mL. Isto acontece apesar das muitas horas de sol que caracterizam o nosso país.
À primeira vista, parece um paradoxo. Afinal, se o sol é a principal fonte desta vitamina, porque continuam tantos portugueses a apresentar níveis insuficientes?
Vitamina D: porque não basta ter sol
A explicação obriga-nos a olhar para além do número de horas de sol. Durante muito tempo associámos este problema apenas ao Inverno.
Os dias são mais curtos e passamos menos tempo ao ar livre. Por isso, é natural pensar que os níveis diminuem nessa altura. Contudo, muitas pessoas desconhecem que a insuficiência pode persistir ao longo de todo o ano.
A vitamina D é produzida sobretudo através da exposição da pele à radiação ultravioleta B (UVB). No entanto, essa produção depende de múltiplos factores.
Entre eles contam-se a idade, a pigmentação da pele e a área corporal exposta. Também a intensidade da radiação solar e o tempo de exposição são determinantes. Além disso, a alimentação e, quando indicada, a suplementação contribuem para manter níveis adequados.
A forma como vivemos condiciona a exposição
Há outro factor que ajuda a explicar este paradoxo: a forma como vivemos.
Hoje passamos grande parte do dia em ambientes fechados. Trabalhamos em escritórios e estudamos em salas de aula. Deslocamo-nos de automóvel e ocupamos cada vez mais o tempo livre em espaços interiores.
Mesmo durante o Verão, muitas pessoas acabam por ter uma exposição solar efectiva muito inferior àquela que imaginam.
Ao mesmo tempo, existe hoje uma maior consciência da importância da protecção solar. O uso de protector solar e outras medidas de fotoprotecção são fundamentais para reduzir o risco de cancro da pele. Não devem, por isso, ser desvalorizados.
A mensagem não é expormo-nos mais ao sol sem protecção. É antes compreender que a simples existência de muitas horas de sol não garante níveis adequados de vitamina D.
Uma insuficiência que pode ser silenciosa
Outro aspecto importante é que a insuficiência de vitamina D pode permanecer silenciosa durante muito tempo. Na maioria das situações não provoca sintomas específicos, sobretudo quando é ligeira ou moderada.
Quando a deficiência é mais marcada e prolongada, o quadro altera-se. Pode então associar-se a fraqueza muscular e a dor óssea. Existe também um maior risco de quedas e fracturas, especialmente nas pessoas mais velhas.
O papel da vitamina D na saúde óssea e muscular está bem estabelecido. É essencial para a absorção do cálcio e para a manutenção da resistência do esqueleto.
Grupos que merecem especial atenção
Embora qualquer pessoa possa apresentar níveis baixos, alguns grupos merecem especial atenção. É o caso dos idosos e das pessoas institucionalizadas ou com mobilidade reduzida.
O mesmo se aplica às pessoas com obesidade. Também quem tem doenças que condicionam a absorção intestinal está em maior risco. Por fim, importa considerar quem toma medicamentos que interferem com o metabolismo desta vitamina.
Rastreio sistemático não está recomendado
Importa desfazer outra ideia muito comum. Falar de insuficiência ou défice de vitamina D não significa defender análises para toda a população.
A evidência científica actual não recomenda o rastreio sistemático de adultos saudáveis. A decisão de dosear a vitamina D deve resultar da avaliação clínica e da existência de factores de risco.
Deste modo, permite-se uma abordagem individualizada. Evitam-se, igualmente, exames ou tratamentos desnecessários.
Um tema para todo o ano
A principal mensagem é simples. A vitamina D não é uma preocupação exclusiva dos meses de Inverno. É um tema que deve fazer parte da nossa literacia em saúde ao longo de todo o ano.
Mais do que contar horas de sol, importa compreender quem tem maior risco. Importa também promover estilos de vida saudáveis e, quando necessário, avaliar cada situação de forma individual.
Porque o verdadeiro paradoxo português não é a falta de sol. É continuarmos a encontrar níveis insuficientes de vitamina D num dos países mais soalheiros da Europa.
Bruno Moreno Médico de Família Unidade de Saúde Familiar (USF) Coimbra Sul
Nota da Redacção: este é um artigo de opinião. As posições expressas são da responsabilidade do autor. O texto não substitui a avaliação clínica individual. Informação de referência sobre o défice de vitamina D está disponível na Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo.





