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Imagine entrar num consultório médico e, em vez de um especialista analisar demoradamente uma imagem do fundo do olho, um computador, em segundos, fornece um diagnóstico preciso, avalia o risco de progressão da doença e sugere ao seu médico Oftalmologista o um possível plano de tratamento. Esta não é uma visão distante do futuro — é uma realidade em construção acelerada, graças à Inteligência Artificial (IA).
Nos últimos anos, a aplicação da IA na medicina tem vindo a crescer exponencialmente. E poucas áreas têm beneficiado tanto como a Oftalmologia. Do rastreio à monitorização de doenças como a retinopatia diabética, a degenerescência macular relacionada com a idade (DMRI), o glaucoma e a retinopatia da prematuridade, a tecnologia está a ganhar um papel de destaque no apoio ao diagnóstico e na personalização dos cuidados de saúde visual.
Mas afinal, como funciona esta tecnologia? E que mudanças pode trazer à forma como cuidamos da nossa visão?
O que é Inteligência Artificial?
A Inteligência Artificial é um ramo da informática que procura imitar a capacidade humana de raciocinar, aprender com a experiência e tomar decisões. Em vez de serem programados com instruções rígidas, os sistemas de IA “aprendem” com grandes volumes de dados — como milhões de imagens médicas — para reconhecer padrões e prever resultados.
Na prática, isto significa que um computador pode aprender a distinguir um olho saudável de um com sinais precoces de doença, com uma precisão muitas vezes comparável à de um médico experiente. Esta aprendizagem é possível através de métodos como o “deep learning” (aprendizagem profunda), onde redes neuronais artificiais — inspiradas no cérebro humano — são treinadas para detetar alterações subtis nas imagens.
Uma resposta à escassez de especialistas
Um dos grandes desafios da saúde ocular global é a escassez de oftalmologistas, sobretudo em zonas remotas ou com recursos limitados. Em muitos países, o número de profissionais não é suficiente para responder às necessidades da população, o que leva a atrasos no diagnóstico e tratamento de doenças capazes de provocar cegueira.
A IA pode ajudar a colmatar essa lacuna. Por exemplo, dispositivos equipados com algoritmos inteligentes conseguem analisar fotografias da retina e indicar se há sinais de doenças como a retinopatia diabética — uma das principais causas de cegueira em adultos. Esta triagem automática permite que apenas os casos suspeitos sejam encaminhados para avaliação médica, poupando tempo e recursos.
Resultados promissores: A retinopatia diabética
Os estudos mais recentes são animadores. Um sistema aprovado nos EUA pela agência reguladora FDA, por exemplo, consegue detetar retinopatia diabética com mais de 90% de sensibilidade e especificidade — valores comparáveis aos dos especialistas humanos. A diabetes é uma epidemia silenciosa que afeta mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Uma das suas complicações mais graves é a retinopatia diabética, que pode levar à cegueira se não for detetada precocemente.
A boa notícia é que esta doença pode ser identificada através de uma simples fotografia do fundo do olho. E é aqui que a IA entra em cena: sistemas como o EyeArt ou o Retmarker (este desenvolvido em Portugal, mais concretamente em Coimbra) analisam estas imagens em segundos, com elevada fiabilidade, e classificam o risco do paciente. Alguns destes sistemas estão já a ser usados em programas de rastreio em larga escala — inclusive em Portugal.
Degenerescência Macular: olhar para o futuro
A degenerescência macular associada à idade (DMI) é outra das causas mais comuns de perda de visão após os 60 anos. À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de diagnósticos rápidos e eficientes. Sistemas de IA têm vindo a ser treinados para identificar alterações na retina tais como drusen (depósitos amarelos na retina), atrofia do epitélio pigmentado ou a presença de fluido que são sinais da doença em diferentes estádios de gravidade. Estes algoritmos usam imagens de retinografia e tomografia de coerência óptica (OCT) e tornam possível a implementação de medidas de prevenção e tratamento precoce da DMI.
Glaucoma: detetar antes de perder a visão
O glaucoma é conhecido como o “ladrão silencioso da visão” porque pode evoluir sem sintomas até fases avançadas. A IA tem-se mostrado promissora no rastreio precoce, através da análise de parâmetros como a escavação do nervo óptico e a espessura da camada de fibras nervosas. Modelos desenvolvidos em países asiáticos, com base em mais de 100 mil imagens, já conseguem detetar suspeitas de glaucoma com mais de 95% de precisão, contribuindo para diagnósticos mais precoces e menor risco de cegueira.
Retinopatia da Prematuridade: proteger os mais pequenos
Nos bebés prematuros, a imaturidade dos vasos da retina pode levar a uma condição grave chamada retinopatia da prematuridade (ROP). A deteção precoce é crucial, mas nem sempre é fácil ter especialistas disponíveis nas unidades neonatais. Sistemas de IA como o i-ROP DL analisam imagens obtidas com câmaras especiais e identificam os graus de gravidade da doença com resultados comparáveis aos de especialistas. Em estudos recentes, a precisão destes sistemas ultrapassou os 90%, mostrando-se uma ferramenta promissora para hospitais de todo o mundo.
Limites e desafios éticos
Apesar dos avanços, é importante reconhecer que a IA não é perfeita — nem deve substituir o médico. Os algoritmos funcionam bem quando treinados com grandes volumes de dados de boa qualidade, mas podem falhar em situações raras ou atípicas. Há também preocupações legítimas com a privacidade dos dados dos pacientes, o risco de viés algorítmico e a falta de transparência em certos modelos (a chamada caixa negra).
Além disso, a IA não substitui o julgamento clínico, nem considera fatores sociais, emocionais ou culturais que muitas vezes influenciam o cuidado ao doente.
O futuro é colaborativo
A melhor forma de integrar a IA na medicina é através de uma parceria entre humanos e máquinas. A tecnologia pode libertar os médicos de tarefas repetitivas, aumentar a eficiência dos sistemas de saúde e reduzir desigualdades no acesso aos cuidados — mas sempre com supervisão humana.
Conclusão
A Inteligência Artificial está a transformar a forma como vemos — literalmente. Ao potenciar diagnósticos mais precoces, mais rápidos e mais acessíveis, abre caminho a uma oftalmologia mais justa, eficiente e personalizada. Ainda há desafios pela frente, mas o horizonte é promissor. Afinal, se os olhos são o espelho da alma, talvez a IA seja o espelho de uma medicina mais humana, precisa e inclusiva, mas que não exclui a supervisão humana nem substitui o julgamento clínico.
Por Dr. Rufino Silva
Prof. da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
Médico Oftalmologista da ULS de Coimbra
Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia
