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A colangite biliar primária é uma doença crónica e autoimune do fígado. O sistema imunitário ataca as pequenas vias biliares do órgão e compromete, assim, a circulação da bílis.
O que é a colangite biliar primária
O fígado produz a bílis e transporta-a por essas vias. A bílis desempenha, por isso, um papel central na digestão e na absorção das gorduras. Além disso, ajuda a eliminar toxinas.
Quando a doença destrói essas vias, a bílis deixa de circular e acumula-se no fígado. Ao longo dos anos, a inflamação crónica provoca fibrose. No grau mais avançado, essa fibrose passa a chamar-se cirrose.
Até 2015, os médicos chamavam à doença cirrose biliar primária. Contudo, mudaram o nome, porque muitos casos nunca evoluem para cirrose.
Quem está em maior risco
Trata-se de uma doença rara. A prevalência ronda os 14 casos por cada 100 mil pessoas na Europa. Afecta sobretudo mulheres, em especial entre os 40 e os 60 anos.
Existe também associação com outras doenças autoimunes. É o caso da tiroidite, da esclerose sistémica, da artrite reumatóide e do síndrome de Sjögren.
Os investigadores ainda não conhecem por completo a causa. A doença surge, em regra, em pessoas com susceptibilidade genética que contactam com factores ambientais desencadeantes, como o tabaco e as infecções urinárias.
Diagnóstico começa com a fosfatase alcalina
Em regra, o médico detecta a doença na fase assintomática. A ausência de sintomas atrasa, por isso, o diagnóstico e empurra-o para uma fase mais avançada.
Quando surgem sintomas, os mais comuns são a fadiga e o prurido. Já a icterícia constitui um sinal tardio, mais associado à cirrose.
A suspeita deve surgir perante a elevação das enzimas do fígado, sobretudo da fosfatase alcalina. A autora aconselha, por isso, análises anuais.
Perante uma elevação da fosfatase alcalina, mesmo isolada, o médico deve procurar os anticorpos anti-mitocondriais. Estes marcadores aparecem em cerca de 95 por cento dos casos. Se o resultado for negativo, procura ainda outros dois marcadores: o sp100 e o gp210.
Com a enzima elevada e um destes anticorpos positivo, o diagnóstico fica estabelecido, mesmo sem sintomas. Depois, é comum juntar ecografia abdominal e elastografia hepática, que mede o grau de fibrose. Em casos de dúvida, o médico pode ainda pedir uma biopsia do fígado.
Outras doenças digestivas afectam igualmente o fígado sem sinais evidentes. É o caso da doença celíaca, que pode atingir o fígado sem sintomas digestivos.
Tratamento controla a doença mas não cura
Não existe cura. Ainda assim, os tratamentos actuais controlam a doença e evitam a progressão para a cirrose e para as suas complicações.
O tratamento de primeira linha é o ácido ursodesoxicólico. Em 30 a 40 por cento dos casos, porém, há intolerância ou resposta insuficiente. Nessas situações, o médico introduz fármacos de segunda linha.
Na fase de cirrose, sobretudo com descompensação ou cancro do fígado, o doente pode precisar de transplante hepático. O prurido, por vezes debilitante, também pode justificar essa indicação.
Viver com a doença
A doença pode afectar a qualidade de vida. Mesmo assim, o controlo é possível. Além do tratamento e do seguimento por especialista, contam muito os hábitos de vida.
A autora recomenda alimentação equilibrada, controlo do peso e exercício físico. Aconselha ainda bons hábitos de sono e a evicção de álcool e tabaco. Por fim, destaca o papel das associações de doentes, como a CBP Portugal.
A gastrenterologia tem dado destaque crescente a estas patologias, nomeadamente na Semana Digestiva 2026.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui a consulta médica.
Artigo de Joana Carvalho e Branco, médica gastrenterologista e vogal da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia. Mais informação em saudedigestiva.pt.
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