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Ontem, como Professor, ganhei 10-0 à Inteligência Artificial

Tempo de leitura estimado: 4 minutos

Ontem revi dezenas de ex-alunos meus num sarau de ginástica. Após muitas emoções e, já em casa, com alguma serenidade, revi rostos, momentos e ensinamentos. Percebi que o tempo também nos pode trazer felicidade quando permanecemos na memória e no coração de quem partilhou connosco conhecimento, experiências e emoções numa sala de aula.

Logo depois, antes de adormecer no sofá, lembrei-me das palavras de um comentador televisivo que, de forma categórica, afirmava que a profissão de professor seria dizimada pela Inteligência Artificial.

De imediato, pensei para comigo: será que esse comentador diria o mesmo se tivesse ensinado o António, que hoje adora História porque viveu as minhas aulas sobre o Antigo Egito como se tivesse sido amigo de Ramsés III? Terá noção de que o Manel descobriu o seu talento para fazer os outros rir porque encontrou um espaço seguro para se expressar dentro da sala de aula? Ou saberá que a Matilde disse à mãe, no dia em que me despedi da sua turma, que queria ser professora de Português quando crescesse, tal como o professor Paulo?

A Inteligência Artificial poderá responder a perguntas, corrigir exercícios, preparar conteúdos e até dar explicações. Mas nunca ouvirá um antigo aluno agradecer-lhe por ter sido repreendido no momento certo, como a Rita fez ontem, quatro anos depois de ter sido minha aluna em Évora.

O que a Inteligência Artificial nunca conseguirá fazer

Por mais avançada que seja, e mesmo que um dia habite um corpo humanoide quase indistinguível de uma pessoa, nunca perguntará à Catarina se as razões das lágrimas que derramou no 5.º ano já desapareceram. Nunca compreenderá o significado de um olhar cúmplice ou de um abraço sincero como aquele que troquei ontem com o Dinis, sabendo ambos as dificuldades que enfrentou e ultrapassou.

A escola do futuro e o papel do professor

A escola do futuro não pode continuar a funcionar exatamente da mesma forma que funcionava quando éramos crianças. Nesse ponto, dou razão aos que alertam para a necessidade de mudança e para o papel crescente da inteligência artificial na educação. Os professores que não conseguirem adaptar-se, que não compreenderem os seus alunos e que insistirem apenas na transmissão mecânica de conteúdos terão inevitavelmente maiores dificuldades.

Mas ensinar nunca será apenas transmitir informação.

O professor do futuro terá de ser orientador, motivador, mediador e exemplo. Utilizando uma comparação simples, será semelhante a um bom profissional que diagnostica um problema, encontra soluções e acompanha o processo até ao resultado final. Ensinar será cada vez mais ajudar os alunos a descobrir capacidades, ganhar confiança e encontrar o seu lugar no mundo.

Os discursos monocórdicos da exigência pela exigência terão de dar lugar a uma exigência inteligente, humana e inspiradora. A alegria de ensinar não é incompatível com o rigor. Pelo contrário. Muitas vezes é precisamente através da empatia, da proximidade e da motivação que se alcançam os melhores resultados.

A relação humana que nenhum algoritmo substitui

Na verdade, aquilo que leva um aluno a correr para abraçar um antigo professor anos depois não é a memória de uma ficha de avaliação nem de uma nota final.

É a memória de alguém que acreditou nele.

Por mais poderosa que seja, nenhuma máquina consegue substituir essa ligação.

Afinal, aquilo que transforma verdadeiramente uma vida não é um algoritmo.

É uma relação humana.

Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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