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Há guerras que já não abrem telejornais. Bombas continuam a cair, famílias continuam a fugir, mas a atenção coletiva já se virou para outro lado. Tornaram-se guerras esquecidas. Tornaram-se rotina. E esse talvez seja o maior perigo: habituarmo-nos ao absurdo, como se fosse normal viver num planeta em chamas.
De Kiev a Gaza, passando por Taiwan ou pelo Sahel africano, a violência instala-se como pano de fundo da nossa era. A ONU, que nasceu para garantir paz, hoje limita-se a escrever comunicados sem eco. Líderes como Zelensky e Guterres falam em “esforços diplomáticos”, mas falta-lhes o poder real de travar o ciclo interminável da guerra.
Ao mesmo tempo, as democracias — que deveriam ser o farol do mundo — estão fatigadas, frágeis e, em muitos casos, reféns de populismos. Nos EUA, Trump influencia a agenda global mesmo fora da Casa Branca. Na Europa, partidos radicais crescem alimentados pelo medo e pela frustração. Portugal não é exceção: Ventura não é fenómeno isolado, mas reflexo de um mal-estar global em que gritos fáceis substituem soluções sérias.
E no meio disto tudo, a tecnologia, em vez de ser apenas esperança, já é também ameaça. A inteligência artificial, que podia servir para salvar vidas ou educar milhões, já é usada para crimes digitais, manipulação política e fabricação de imagens falsas de líderes mundiais. A fronteira entre o real e o fabricado desfaz-se a olhos vistos. Se não sabemos em quem acreditar, como defender a democracia?
O jornalismo não pode ser cúmplice deste silêncio ou desta confusão. Não serve repetir comunicados ou alimentar o espetáculo político. O papel da imprensa é dar contexto, dar voz ao que está escondido e resistir à banalização do caos.
Se há algo que a História nos ensina é que impérios colapsam não pela força dos inimigos, mas pela indiferença dos próprios cidadãos. O Ocidente corre esse risco: o risco de achar normal o que nunca devia ser normal.
E é aqui que todos — políticos, jornalistas, cidadãos — temos de nos perguntar: vamos continuar a assistir de sofá a um mundo que se desmorona em direto ou vamos assumir a responsabilidade de o reconstruir?
O futuro não está escrito. Está nas escolhas que fazemos, no que exigimos e no que recusamos aceitar como inevitável. A apatia é um luxo que já não podemos pagar.
Por Lino Gonçalves, Diretor de Informação





