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A preservação da fertilidade após um diagnóstico oncológico continua a ser um tema pouco discutido fora do contexto clínico, apesar de afetar mulheres e homens. No Dia Mundial do Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, especialistas alertam para a necessidade de informação clara e atempada antes do início dos tratamentos.
A quimioterapia e a radioterapia, fundamentais no tratamento de vários tipos de cancro, podem comprometer de forma significativa a função reprodutiva. Nas mulheres, estes tratamentos podem acelerar a perda da reserva ovárica ou conduzir a falência ovárica precoce. Nos homens, podem reduzir ou mesmo eliminar a produção de espermatozoides. Ainda assim, a preservação da fertilidade masculina permanece menos visível do que a feminina.
Segundo Catarina Marques, médica ginecologista do IVI Lisboa, “a quimioterapia e a radioterapia podem comprometer de forma significativa a função reprodutiva”, sublinhando que falar de fertilidade após o diagnóstico “não é apenas falar de maternidade, nem um tema exclusivamente feminino”.
As estimativas internacionais da Organização Mundial da Saúde apontam para um aumento de cerca de 77 % nos casos de cancro em todo o mundo até 2050, com mais de 35 milhões de novos diagnósticos anuais. Estes números reforçam a urgência de olhar não só para a sobrevivência, mas também para as consequências a longo prazo da doença, incluindo a fertilidade em pessoas em idade reprodutiva.
Para a médica, assinalar o Dia Mundial do Cancro é uma oportunidade para alargar o debate. “Falar de fertilidade depois do diagnóstico é falar de qualidade de vida, de escolhas futuras e do direito à informação”, afirma, defendendo uma abordagem mais completa e informada da saúde reprodutiva.
Criopreservar espermatozoides é simples e seguro
A medicina dispõe de soluções eficazes para proteger a fertilidade antes do início dos tratamentos oncológicos. Nas mulheres, a criopreservação de ovócitos permite salvaguardar o potencial reprodutivo para o futuro, sem comprometer a eficácia dos tratamentos nem as taxas de sobrevivência. Nos homens, a criopreservação de espermatozoides é um procedimento simples, seguro e amplamente utilizado, preservando a possibilidade de vir a ser pai após a recuperação da doença.
“A prioridade no momento do diagnóstico é naturalmente a sobrevivência. No entanto, é precisamente nessa fase que decisões informadas podem fazer a diferença no futuro”, explica Catarina Marques. A informação clara e atempada permite manter em aberto a possibilidade de parentalidade, mesmo quando esse projeto ainda não está definido.
Depois de ultrapassada a doença, o percurso reprodutivo pode variar. Em alguns casos, a fertilidade recupera espontaneamente. Noutros, é possível recorrer ao material genético previamente preservado através de técnicas de reprodução medicamente assistida. “O essencial é o acompanhamento especializado e a avaliação individual de cada situação”, conclui.
