Portugal vive dias difíceis. O verão de 2025 ficará marcado como um dos mais negros da nossa memória recente, com mais de 2% do território nacional reduzido a cinzas. A cada chama que avança, sentimos que a História regressa — não como lição, mas como maldição. E se recuarmos no tempo, percebemos que os grandes incêndios sempre acompanharam a trajetória deste país, como uma sombra persistente que nos recorda a nossa fragilidade diante da natureza e da imprevidência humana. Não é apenas de fogos florestais que falamos. A História regista, em Portugal, incêndios urbanos devastadores, capazes de arrasar cidades inteiras ...
Read More »Churchill, o “vira-casacas” que salvou o mundo?
Há uma superstição enraizada em Portugal que condena quem muda de partido à desonra eterna. A política é vista como uma réplica séria de um Sporting-Benfica, onde a fidelidade à camisola é mais importante do que a qualidade do jogo. Essa leitura infantilizada cai por terra quando a História nos recorda que um dos maiores políticos de sempre, Winston Churchill, não só mudou de partido como voltou atrás e ainda venceu eleições. O percurso de Churchill mostra um pragmatismo raro, sobretudo quando comparado com a rigidez tribal que domina o sistema português. Começou como conservador, aderiu aos liberais, percebeu que ...
Read More »As mortes escondidas pelo regime na construção da ponte sobre o Tejo
A manhã de 6 de agosto de 1966 trouxe a Lisboa um espetáculo cuidadosamente encenado. A inauguração da então designada Ponte Salazar representava, para o Estado Novo, uma prova material da sua capacidade de conduzir o país à modernidade. O acontecimento foi transmitido pela Emissora Nacional e noticiado na imprensa como um triunfo da engenharia nacional, ainda que a construção tivesse sido dirigida pela United States Steel Export Company. A ponte surgia como vitrine do regime, um monumento erguido para perdurar e servir de argumento de propaganda. No discurso oficial quase nada se disse sobre os homens que perderam a ...
Read More »O esconderijo de José Saramago
José Saramago gostava de afirmar que apenas três lugares no mundo lhe deram a sensação de estar verdadeiramente em casa: a Azinhaga, a freguesia de Lavre e a ilha de Lanzarote. Essa convicção ficou registada em vídeo, durante uma passagem por Lavre já depois da atribuição do Prémio Nobel da Literatura, nas instalações da antiga cooperativa agrícola. A pequena localidade alentejana transformou-se num refúgio decisivo para a sua vida e para a sua obra. O escritor permaneceu na casa de D. Mariana, onde encontrou serenidade e proximidade com o quotidiano das gentes do campo. Nesse espaço simples nasceu Levantado do ...
Read More »O arqueólogo que sabia demais sobre o Alentejo…
No princípio eram só pedras. Grandes, imensas, silenciosas no campo alentejano. Mas para Geoffrey William Braybrooke Lowe, não havia pedra que não pudesse falar. Chegou a Évora nos anos 50, vindo de Inglaterra, com um caderno de capa preta e um olhar treinado para medir séculos no alinhamento das lajes. Passava horas a desenhar perfis, a medir distâncias, a fotografar cada ângulo da Anta Grande do Zambujeiro. Aos olhos de quem passava, era apenas mais um estrangeiro excêntrico. Mas não aos olhos do Estado Novo. O regime de Salazar desconfiava dele. Publicava artigos em revistas estrangeiras sem pedir bênção a ...
Read More »Quando Portugal provocou a criação de Wall Street
Após expulsar holandeses e judeus do Brasil no século XVII, Portugal desencadeou uma migração que levou à construção da muralha que deu nome à famosa rua de Nova Iorque. Poucos nova-iorquinos sabem que a famosa Wall Street, coração financeiro do mundo, nasceu de um episódio que começa em Portugal. Mais precisamente, no Brasil, no século XVII, durante as guerras que se seguiram à separação da Coroa portuguesa da monarquia espanhola. Entre 1580 e 1640, durante a União Ibérica, Portugal e Espanha eram governados pelo mesmo rei. Foi nesse período que a Holanda, então em ascensão marítima, aproveitou para atacar os ...
Read More »Afonso III, o rei que ouviu os “autarcas” da sua época
A poucos meses das eleições autárquicas, é importante lembrar que o municipalismo português não nasceu com o 25 de Abril nem é um exclusivo da democracia contemporânea. As suas raízes são fundas, medievais, e um dos seus maiores impulsores foi precisamente um rei do século XIII: Afonso III. Foi ele quem, em 1254, nas Caldas da Rainha, tomou a inédita decisão de convocar Cortes para ouvir os “homens bons” dos concelhos — os autarcas da época — sobre uma medida sensível: a quebra da moeda. O rei tinha poder absoluto. Mas preferiu escutar. Discutiu com os representantes populares e, perante ...
Read More »O mistério da última morada da Mãe de Jesus
A figura de Maria ocupa um lugar singular na história do cristianismo. O Evangelho de João relata a cena em que Jesus, no Calvário, entrega a sua mãe ao discípulo amado. Essa breve passagem gerou a convicção de que Maria acompanhou João até ao fim da sua vida. O eco dessa tradição ressoou ao longo dos séculos e continua a dividir estudiosos e fiéis. A cidade de Éfeso, no Mediterrâneo oriental, foi um dos centros mais importantes do mundo romano. Comércio, cultura e religião cruzavam-se nas suas ruas monumentais. Os Padres da Igreja evocam a presença de João na cidade. ...
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