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Hemorragia após a menopausa não é normal e deve ser avaliada

Tempo de leitura estimado: 4 minutos

A menopausa é uma fase natural da vida da mulher, mas nem todas as alterações devem ser encaradas como normais. Uma hemorragia após a menopausa merece atenção. Pode ter causas benignas, mas também ser um sinal de cancro do endométrio, pelo que deve ser avaliada.

É com agrado que tenho visto a menopausa tornar-se um tema discutido abertamente. Esse debate ajuda a desmistificar um processo natural e a distinguir o que é normal do que deve ser entendido como sinal de alarme.

O que é hemorragia após a menopausa

Esta fase traz alterações que podem afectar o dia-a-dia das mulheres. Os ciclos menstruais terminam, os níveis hormonais mudam e surgem sintomas como afrontamentos, alterações do sono ou secura vaginal. Tudo isto faz parte da nova etapa.

Porém, há uma mudança que não deve ser atribuída à menopausa. Trata-se do aparecimento de uma hemorragia vaginal após um período prolongado sem menstruação, ou seja, qualquer sangramento que ocorra depois de 12 meses sem menstruar.

Esta hemorragia pode ser semelhante à menstruação. Pode também manifestar-se através de pequenas perdas de sangue ou de um corrimento rosado ou acastanhado. O importante é saber que, mesmo quando é pouco intenso ou acontece apenas uma vez, a mulher deve procurar um profissional de saúde.

Porque não se deve desvalorizar o sinal

A razão é simples. Este pode ser um dos primeiros sinais de cancro do endométrio, um tumor que se desenvolve no revestimento interno do útero.

Embora a maioria das mulheres com hemorragia pós-menopausa não tenha cancro, este é um sinal que pode, literalmente, salvar vidas. É muito evidente e pode significar um prognóstico favorável quando o tumor é diagnosticado numa fase precoce. É, desde logo, o sintoma mais frequente deste tipo de cancro e contribui, quando não é desvalorizado, para 80% dos diagnósticos precoces.

Como é feita a avaliação médica

A avaliação médica permite perceber a origem do sangramento. Determina também se serão necessários exames complementares, segundo cada situação clínica.

O processo envolve uma observação ginecológica e uma ecografia transvaginal. Estes exames avaliam a espessura do endométrio e identificam alterações que justifiquem uma investigação mais aprofundada, que pode incluir histeroscopia e biópsia do endométrio.

Durante a consulta, a mulher deve referir não apenas o episódio de sangramento. Deve indicar também outros aspectos da sua história clínica, os medicamentos que toma e eventuais antecedentes familiares. Existem factores que aumentam o risco de alterações do endométrio, como a obesidade, um dos principais, a diabetes, determinadas terapêuticas hormonais ou factores hereditários.

Causas benignas também existem

Contudo, é importante não transformar isto numa situação de alarme, mas encará-la como uma oportunidade para cuidar da saúde. Perante sinais do corpo, as mulheres tendem a desvalorizá-los, atribuindo-os ao cansaço e ao ritmo exigente do dia-a-dia, e adiam por vezes a procura de uma avaliação médica.

Existem várias causas benignas para a hemorragia pós-menopausa. A redução dos estrogénios pode provocar diminuição da espessura do endométrio e fragilidade dos tecidos da vagina. A existência de pólipos também pode causar sangramento. Já a terapêutica hormonal da menopausa pode contribuir para hemorragias ou perdas irregulares, sobretudo no início do tratamento ou após alterações da medicação.

Ainda assim, a mensagem é clara. Perante uma hemorragia inesperada após a menopausa, há motivo para procurar uma avaliação médica. Mais do que falar de medo, devemos falar de atenção.

O cancro do endométrio pode ser tratado de forma eficaz quando detectado numa fase inicial. Reconhecer os possíveis sinais e procurar ajuda é parte fundamental de um diagnóstico precoce. Na maioria dos casos, felizmente, a causa não será cancro. Só uma avaliação médica poderá esclarecer a origem do sangramento e, quando necessário, permitir actuar atempadamente. Fazê-lo não é alarmismo, é prevenção.

Ana Luísa Matias
Médica de Medicina Geral e Familiar da USF Vale do Arunca, ULS Região de Leiria

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