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Semana da Sensibilização para a Malnutrição decorre de 10 a 16 de novembro

Tempo de leitura estimado: 4 minutos

Malnutrição: um problema silencioso que afeta milhares de portugueses

Por Dr. Ricardo Marinho – Coordenador do Núcleo de Estudos de Nutrição Clínica da SPMI

A malnutrição associada à doença é um problema de saúde pública grave que afeta milhares de portugueses, permanecendo amplamente subvalorizado e subdiagnosticado. Contrariamente ao que se pensa, não resulta apenas da falta de alimentos, mas de uma condição clínica complexa que combina doença aguda ou crónica com ingestão ou absorção inadequada de nutrientes.

O que é a malnutrição

A malnutrição caracteriza-se por um desequilíbrio entre as necessidades nutricionais e a ingestão ou absorção de nutrientes. Em contexto hospitalar, surge muitas vezes associada à doença, quando o processo patológico e inflamatório agrava as necessidades do organismo e reduz a capacidade alimentar do doente.

Os sinais não se limitam à perda de peso: incluem sarcopenia, diminuição da força física, comprometimento imunitário, cicatrização lenta e declínio cognitivo. Estes sintomas são frequentemente confundidos com o envelhecimento natural, quando representam uma condição tratável e reversível.

Incidência em Portugal

Nos hospitais portugueses, 28% a 42% dos adultos internados estão em risco nutricional, percentagem que atinge 51% em Medicina Interna. Entre os idosos institucionalizados, 63,6% apresentam sinais de malnutrição ou risco. Estima-se que 115 mil doentes necessitem de suporte nutricional, o que duplica a média europeia.

Consequências clínicas e económicas

A malnutrição não tratada triplica o risco de morte intra-hospitalar e aumenta o tempo de internamento, o risco de infeções, quedas, declínio cognitivo e reinternamentos.
O impacto económico é igualmente significativo: custos superiores a 225 milhões de euros anuais para o Serviço Nacional de Saúde, com 79% mais despesas hospitalares em doentes malnutridos.

A importância da intervenção nutricional

A boa notícia é que a malnutrição é reversível. O estudo da ULS Santo António demonstrou que a suplementação nutricional adequada reduz a mortalidade a níveis idênticos aos de doentes sem risco nutricional.
A suplementação oral precoce é uma das intervenções mais custo-efetivas: basta tratar 37 doentes para evitar uma morte.

A baixa codificação hospitalar

Apesar da prevalência, menos de 10% dos casos são codificados em alta hospitalar (ICD-10), muito abaixo dos valores reais detetados por rastreio. Falta formação e implementação do rastreio nutricional obrigatório desde 2019, o que limita políticas públicas eficazes.

Rastreio e avaliação nutricional

Ferramentas como o Nutritional Risk Screening 2002 (NRS-2002) já permitem rastrear doentes nas primeiras 48 horas de internamento. Contudo, é urgente a implementação efetiva nos Cuidados de Saúde Primários, conforme o Despacho n.º 9984/2023, para prevenir complicações e internamentos evitáveis.

O problema da acessibilidade

A falta de comparticipação dos suplementos nutricionais orais fora do hospital cria uma grave desigualdade no acesso ao tratamento, especialmente entre idosos e doentes vulneráveis.
Apesar da Portaria n.º 82/2025/1, publicada a 4 de março, que criou um regime excecional de comparticipação para a nutrição entérica, a medida ainda não foi aplicada e exclui os suplementos orais, que são a primeira linha terapêutica.

O caminho a seguir

Combater a malnutrição exige uma estratégia nacional coordenada, com:

  • Rastreio sistemático em todos os níveis de cuidados;

  • Formação dos profissionais para diagnóstico e codificação;

  • Comparticipação dos suplementos nutricionais orais;

  • Equipas multidisciplinares de nutrição clínica em todos os hospitais;

  • Campanhas públicas de sensibilização.

A 7.ª edição da Semana da Sensibilização para a Malnutrição, que decorre de 10 a 16 de novembro de 2025 sob o mote “Acessibilidade equitativa à nutrição clínica”, é promovida pela APNEP – Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica, no âmbito da campanha internacional ONCA (Optimal Nutritional Care for All).

A malnutrição não é uma consequência inevitável da doença ou do envelhecimento, mas sim uma condição tratável e reversível. Investir na nutrição é investir em vida, saúde e equidade.

nn

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