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Mais um agosto, mais um país em chamas. Incêndios de grandes dimensões ameaçam comunidades, Espanha evacua 1.400 pessoas e, por cá, multiplicam-se os avisos laranja. No entanto, enquanto a realidade é dura e concreta, parte significativa da imprensa insiste em tratar a tragédia como mais um ponto numa grelha de programação, colocado lado a lado com fait-divers sobre celebridades ou curiosidades das redes sociais.
A prioridade mediática parece ser servir ao público o que “vende” e não o que realmente importa. Questões críticas – como falhas na prevenção, fragilidades na Proteção Civil ou responsabilidades políticas – são reduzidas a segundos de reportagem, rapidamente substituídos por polémicas artificiais e manchetes descartáveis. Resultado: uma população entretida, mas mal informada, sem o contexto necessário para compreender o que está em causa.
O problema não é falta de informação; é excesso de ruído. A enxurrada diária de notícias cria a ilusão de pluralidade e profundidade, mas, na prática, vivemos uma corrida para ver quem publica primeiro, não quem explica melhor. Enquanto isso, as perguntas essenciais ficam por responder: porque se repete ano após ano o mesmo cenário de destruição? Quem responde pelas falhas na prevenção? Que meios estão – ou não – preparados para agir?
Um jornalismo sério e responsável não se pode render à lógica fácil do clique e do partilhar imediato. É dever dos órgãos de comunicação hierarquizar o essencial, separar factos de propaganda e assumir o incómodo de expor o que não corre bem – mesmo que isso não seja “popular” ou “viral”.
Portugal precisa menos de entretenimento disfarçado de notícia e mais de jornalismo incómodo – aquele que inquieta quem tem poder e esclarece quem não o tem. O resto é ruído. E, em tempo de crise, o ruído também mata.
Lino Gonçalves
Diretor de Informaçãonn
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