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O cenário parecia saído de um filme distópico: fumo negro a encher a praça em frente à Assembleia da República, pneus em chamas e a escadaria do Parlamento tomada por homens e mulheres de farda, rostos endurecidos pelo cansaço e pela frustração. Estes não eram agitadores profissionais, mas sim os bombeiros sapadores de Portugal – os mesmos que arriscam as suas vidas para nos proteger.
A ocupação da escadaria do Parlamento foi um grito de revolta, uma tentativa de expor à luz do dia o que consideram ser uma grave injustiça: a falta de reconhecimento pelo risco e penosidade da profissão. Cartazes com frases como “heróis esquecidos” e “não somos descartáveis” eram segurados por aqueles que, diariamente, enfrentam o pior para garantir a nossa segurança.
Durante o protesto, pneus foram incendiados, latas de fumo foram lançadas e um caixão simbólico foi erguido ao som de palavras de ordem. À medida que o fumo enchia o ar, tornava-se claro que a situação havia ultrapassado os limites do razoável. Era como se o Parlamento tivesse sido invadido por uma nuvem de indignação. E, apesar do aparente caos, o que se ouviu não foi um pedido desesperado, mas sim um grito por dignidade.
Há décadas que os bombeiros sapadores reivindicam aquilo que consideram ser uma retribuição justa pelo risco inerente à profissão: a reforma antecipada aos 50 anos, suplementos salariais para compensar a penosidade e insalubridade do trabalho, e um regime de avaliação específico que tenha em consideração as suas circunstâncias. As suas exigências não são novas; são, sim, reflexo de um sentimento de abandono que se foi enraizando ao longo dos anos.
O protesto foi apenas o culminar de uma série de promessas não cumpridas, encontros infrutíferos e decisões políticas que, aos olhos dos bombeiros, falharam em proteger aqueles que dedicam a sua vida a proteger os outros. “Somos os heróis que só se lembram quando há chamas para apagar”, disse um dos manifestantes. E, de certa forma, é verdade. Durante os incêndios de Verão, os bombeiros foram saudados como os guardiões do país. Mas, quando o fumo se dissipa e as câmaras se desligam, o que resta para estes profissionais?
Enquanto observava este cenário, não pude deixar de reflectir sobre a ironia: os homens e mulheres que diariamente enfrentam chamas e destroços, agora empunhavam latas de fumo e incendiavam pneus para serem vistos. Não porque desejam causar destruição, mas porque a sua voz, que tantas vezes grita em silêncio, parece nunca ser ouvida. Há um quê de desespero em ver bombeiros a erguerem um caixão branco à porta do Parlamento – um símbolo que, se não fosse tão trágico, pareceria teatral.
E, no entanto, este protesto também expõe um problema maior e mais sistémico: a capacidade de o Estado responder às necessidades daqueles que o servem. Num país que tantas vezes lida com crises financeiras e tensões sociais, como garantir que os profissionais mais essenciais – como os bombeiros – tenham as condições necessárias para executar o seu trabalho? Será que, enquanto sociedade, conseguimos ver para além do fumo e ouvir para além do ruído?
Ao mesmo tempo, olhamos para a Europa e o mundo, onde desastres naturais, conflitos e crises humanitárias se multiplicam. Recentemente, a Bósnia foi devastada por inundações que deixaram aldeias inteiras isoladas e ceifaram vidas. Na mesma semana, a escalada de violência no Médio Oriente trouxe novos ataques e vítimas civis. Os eventos em Lisboa, apesar de circunscritos ao nosso território, são um reflexo de um sentimento global de desilusão e de luta por direitos que, apesar de óbvios, continuam a ser negados.
O caixão erguido pelos bombeiros sapadores pode simbolizar muitas coisas – a morte das suas esperanças, a luta contínua por justiça, ou simplesmente a sensação de serem ignorados. É, no entanto, um lembrete poderoso de que as verdadeiras chamas que queimam não são apenas aquelas que consomem as matas no Verão, mas sim as que consomem o espírito de quem, em tempos de paz, continua a lutar para não ser esquecido.
A pergunta que fica, no final, é simples: quem irá apagar estas chamas? E será que quem pode fazê-lo estará disposto a agir antes que o fumo sufoque a todos nós?
Lino Gonçalves
Diretor de Informação
iPressJournal






Felizmente ainda existem pessoas que reconhecem e valorizam os Sapadores Bombeiros.
Obrigado
O que ninguém quis saber ,ver e/ou esclarecer. Obrigado pelo excelente artigo que se não soubesse quem o publicou diria que tinha sido tal como eu um bombeiro sapador de Portugal triste e desrespeitado pelos sucessivos governos nos mais de 20 anos como bombeiro sapador em Portugal.