Home » Cultura » O poeta que se tornou a imagem da marca de café

O poeta que se tornou a imagem da marca de café

Tempo de leitura estimado: 3 minutos

Há imagens que se tornam marcas e marcas que se tornam memória. A de Manuel Maria Barbosa du Bocage no pacote de açúcar do Café Nicola é uma dessas fusões improváveis em que história, literatura e comércio se encontram à mesa.
O poeta, falecido em 1805, viria a ser transformado em rosto publicitário mais de um século depois, num encontro feliz entre a tradição e o marketing moderno.

O Café Nicola abriu portas em 1787, no Rossio, pelas mãos do comerciante italiano Nicolau Breteiro, que lhe deu o nome. Era uma casa de cafés e tertúlias frequentada por oficiais, escritores e políticos, tornando-se, no final do século XVIII, ponto de encontro da elite ilustrada lisboeta — um espaço de conversa, polémica e sobrevivência para muitos. Entre eles, Bocage.

Natural de Setúbal, Bocage viveu entre a glória e a ruína. Foi soldado, funcionário público, preso político e poeta satírico. Após regressar de Goa, caiu em desgraça e enfrentou dificuldades económicas. A tradição conta que o dono do Nicola, José Pedro da Silva, o acolheu e ajudou. Bocage passou a declamar versos no café, transformando a sua verve em moeda de troca. O Nicola tornava-se, assim, refúgio, palco e casa do poeta.

Quando, em 1935, o café foi reconstruído em estilo Art Déco, a direção quis perpetuar essa ligação simbólica: colocou uma estátua de Bocage à entrada e começou a usar a sua imagem em cartazes e postais. Décadas mais tarde, quando a marca Nicola expandiu a produção e o merchandising, o rosto do poeta tornou-se símbolo permanente da marca, especialmente no célebre “Lote Bocage”, ainda à venda.

Mas a associação é mais do que estética. Bocage representa a Lisboa crítica, faladora e boémia, onde se discutia política e poesia entre o fumo e o café. Ao transformá-lo em ícone, o Nicola reivindicou uma herança cultural e identitária: o café como espaço de pensamento e de convivência.
É também um gesto de marketing nacionalista, ao associar o consumo quotidiano a uma figura de génio popular.

A ironia, porém, não escapa ao destino. O mesmo poeta que desafiou as convenções e viveu à margem, acabou transformado em símbolo comercial. Mas talvez isso não o incomodasse. Bocage nunca foi homem de pedestal — era homem de mesa, onde o humor e o exagero faziam parte da arte.

Conta-se que um dia lhe perguntaram:

— Quem és? Donde vens? Para onde vais?

E Bocage respondeu:
— Sou o poeta Bocage, venho do Nicola e vou para outro mundo, se disparares com essa pistola.

A anedota, verdadeira ou não, ilustra bem a irreverência que o tornaria imortal.
Hoje, quando o seu rosto surge num pacote de açúcar, não se trata apenas de publicidade — é continuidade histórica.
O café que o acolheu mantém viva a sua imagem, e o consumidor, sem dar por isso, participa num ritual com mais de dois séculos.
Entre o verso e a chávena, Bocage continua presente, talvez a rir-se da ironia de ter encontrado no café o caminho mais duradouro para a imortalidade.

Por Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

Partilhar em: