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De onde nasceu a expressão “saber coisas do arco da velha”?

Tempo de leitura estimado: 3 minutos

A expressão “saber coisas do arco da velha” atravessou séculos e chega até nós carregada de mistério, espiritualidade e memória coletiva. Usamo-la para falar de histórias extraordinárias, difíceis de acreditar, quase tocadas pelo sobrenatural. Mas a origem desta expressão está muito longe do acaso: nasce no arco-íris de Noé, o sinal bíblico da aliança entre Deus e a humanidade.

O arco-íris de Noé transformado pela boca do povo

Depois do Dilúvio, a Bíblia relata que Deus colocou um arco no céu como promessa de que nunca mais destruiria a Terra. Esse arco simbólico — o arco-íris — foi entendido como o “arco do velho Noé”, expressão que a tradição oral simplificou para “arco da velha”. A linguagem popular guardou o que era sagrado, mas moldou-o ao quotidiano, transformando-o num símbolo de maravilha, espanto e revelação.

Dizer que alguém “sabe coisas do arco da velha” é, por isso, associá-lo a histórias tão fabulosas que parecem vir desse tempo primordial em que o divino e o humano se tocavam.

Quando a expressão passou para o imaginário popular

Com o tempo, a expressão ganhou vida própria. Deixou de ser apenas referência à narrativa bíblica para se tornar metáfora de acontecimentos prodigiosos, de relatos improváveis e de coincidências que desafiam a lógica. A expressão passou a identificar histórias extraordinárias que parecem ecoar um mundo mais espiritual, menos preso ao racionalismo moderno.

É essa herança que faz com que, ainda hoje, continue a ser usada para classificar episódios que ultrapassam o comum: situações tão improváveis que parecem lembrar que a realidade nem sempre se explica por inteiro.

Uma expressão que guarda uma saudade espiritual

Num mundo cada vez mais descrente, “saber coisas do arco da velha” sobrevive porque transporta a nostalgia de um tempo em que a humanidade reconhecia com mais facilidade o divino no quotidiano. A expressão recorda que o mistério faz parte da vida e que nem tudo cabe dentro da lógica dos factos.

Usá-la é, de certa forma, admitir que ainda acreditamos no prodígio e na possibilidade do extraordinário. Que há histórias que não se explicam apenas — sentem-se.

Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

Publicado pelo iPressJournal.pt

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