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A tartaruga-comum Salina, reabilitada e devolvida ao mar pelo Porto d’Abrigo do Zoomarine após um ano de cuidados, percorreu 9.203 quilómetros e originou um estudo pioneiro que combina telemetria satélite com análise genética. A investigação oferece uma visão aprofundada sobre padrões migratórios, rotas de alimentação e origem populacional desta espécie ameaçada.
A utilização de um transmissor satélite permitiu recolher dados contínuos ao longo de 13 meses, registando deslocações, parâmetros ambientais e possíveis interações com actividades humanas. Os resultados revelam o potencial da tecnologia para aprofundar o conhecimento sobre as ligações entre populações do Atlântico e do Mediterrâneo, bem como para identificar riscos associados à pesca e a factores ambientais.
O estudo “Tracking and Genetic Analysis of a Rehabilitated Loggerhead Turtle in the Mediterranean” destaca-se por ser o primeiro no Algarve a cruzar informação genética com tracking satélite. Esta abordagem contribui para compreender com maior precisão a conectividade entre regiões e os factores que influenciam a movimentação da tartaruga-comum, uma das seis espécies de tartarugas marinhas actualmente ameaçadas.
Uma recuperação que originou nova ciência
Resgatada por pescadores no rio Guadiana, a Salina apresentava anemia e um anzol alojado no estômago. Após doze meses de reabilitação no Porto d’Abrigo, recuperou capacidades físicas e comportamento natural para regressar ao mar. A migração iniciou-se rapidamente após a libertação, com a travessia do Estreito de Gibraltar em seis dias. Seguiu-se um trajecto que incluiu o Mar de Alborão, as costas de Marrocos e Argélia, o arquipélago das Baleares, a Sardenha e a zona entre a Sicília e a Calábria.
Embora a monitorização tenha terminado devido à perda de sinal — comum devido à duração limitada das baterias — sabe-se que a Salina sobreviveu pelo menos 392 dias após a reabilitação, mantendo padrões de comportamento típicos da espécie. Os dados recolhidos permitem agora identificar áreas críticas, zonas de risco e locais relevantes para estratégias de conservação.
Segundo João Neves, director de Conservação do Zoomarine, cada libertação acompanhada por satélite “transforma-se numa fonte de conhecimento valiosa, capaz de orientar investigação, informar políticas públicas e melhorar a protecção de espécies marinhas ameaçadas”.
Porto d’Abrigo: duas décadas dedicadas à conservação
Criado em 2002, o Porto d’Abrigo foi o primeiro centro nacional dedicado à reabilitação de espécies marinhas e mantém um papel central na investigação e partilha de dados científicos. O Zoomarine tem aprofundado o seu compromisso com a conservação, reforçado pela criação, em parceria com a IUCN, do primeiro Centro de Sobrevivência das Espécies focado na mudança de comportamento através da integração das ciências sociais.





