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A 30 de abril de 1974, o cais de Alcântara fervilhava de curiosidade. À semelhança de 1917, quando a estação finlandesa de São Petersburgo recebeu Lenine de regresso do exílio, também Lisboa aguardava outro homem que trazia nos ombros o peso de uma revolução sonhada. Álvaro Cunhal chegava de Moscovo após mais de uma década de exílio, simbolizando para muitos o retorno do profeta comunista que poderia transformar a jovem liberdade portuguesa numa nova era socialista.
O Partido Comunista Português, clandestino desde 1926, emergia das sombras com uma confiança quase messiânica. O regime caíra há seis dias e o país, embriagado pela liberdade súbita, via em Cunhal a figura da coerência, do sacrifício e da esperança. Tal como Lenine, o líder comunista português trazia um programa ideológico, uma fé política e um sonho de transformação total.
Mas as semelhanças entre ambos terminavam na metáfora. Lenine regressou a uma Rússia exaurida pela guerra e pela fome, onde o Estado estava em colapso e o povo desesperava por ordem e pão. Cunhal, pelo contrário, encontrou um país pobre, sim, mas desejoso de estabilidade e democracia. A Revolução dos Cravos nascera do interior das Forças Armadas, não da luta partidária, e isso alteraria radicalmente o rumo dos acontecimentos.
Enquanto Lenine liderou uma revolução que destruiu o antigo regime e instaurou uma ditadura em nome do proletariado, Cunhal viu a sua visão de socialismo puro confrontada com o pluralismo democrático que emergia em Portugal. O PCP tentou organizar sindicatos, influenciar o MFA e conduzir a transição política, mas encontrou resistências internas e externas. O chamado “verão quente” de 1975 marcou o auge dessa tensão: o país esteve à beira de uma revolução à soviética, travada pela Igreja, pelos socialistas, pelos militares moderados e pelo contexto atlântico.
A história ofereceu, então, duas saídas opostas: o dogma ou a liberdade. Lenine escolheu o primeiro e construiu um Estado totalitário; Cunhal manteve-se fiel à ortodoxia marxista, mas viu o seu projeto ser derrotado pela realidade democrática. O fracasso político do PCP preservou, paradoxalmente, a pureza do ideal — um legado moral que sobreviveu ao poder.
A chegada de Álvaro Cunhal a Lisboa, de rosto severo e mão erguida em saudação, ficou gravada como um dos momentos simbólicos do pós-25 de Abril. Não foi o início de uma revolução vitoriosa, mas o regresso de uma utopia que o tempo haveria de desmentir. Onde Lenine abriu caminho para o império do medo, Cunhal encontrou o limite da história e transformou-se, involuntariamente, no último profeta de um sonho socialista que Portugal recusou concretizar.
Por Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor





