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O humorista conservador que escapou ao fuzilamento e encontrou refúgio em Portugal

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No verão de 1936, Madrid era uma cidade em ruínas morais e ideológicas. As ruas fervilhavam de medo, vingança e denúncias. No meio desse caos, um nome surgiu entre as listas de “suspeitos” que as milícias republicanas procuravam eliminar: Wenceslao Fernández Flórez, escritor galego, cronista arguto e humorista de espírito conservador, conhecido pelas suas sátiras políticas publicadas na imprensa madrilena.

Quando a Guerra Civil Espanhola rebentou, o humor de Flórez tornou-se perigoso. As suas ironias, outrora aplaudidas, passaram a ser vistas como provocação. Preso e condenado à morte pelos republicanos, escapou apenas por intervenção diplomática — fontes divergem entre a embaixada argentina e a embaixada holandesa — que o retirou de uma execução certa.

Exílio e renascimento em Lisboa

Refugiado em Portugal, encontrou um país que lhe ofereceu silêncio e sobrevivência. Em Lisboa, junto ao Tejo, começou a reconstruir-se como homem e escritor. Foi aqui que concebeu “Una isla en el mar rojo” (1939), obra profundamente simbólica, onde retratou uma Espanha afogada em sangue e desespero. O livro seria traduzido em português pouco depois, encontrando leitores atentos que viram nele mais uma confissão do que um romance.

Portugal acolheu-o com a sua habitual discrição: sem aclamações, mas com respeito. Entre cafés e correspondência trocada, Flórez descobriu no exílio a serenidade e o valor do silêncio. O humorista que escapara à morte escrevia agora com gravidade, como quem agradece à vida o simples facto de ainda existir.

Regresso à Galiza e consagração literária

Terminada a guerra, regressou à Galiza, onde o novo regime franquista o recebeu como símbolo da “Espanha sobrevivente”. A sua escrita, porém, já não era a mesma. Em “El bosque animado” — a sua obra-prima —, as florestas galegas ganham voz e alma. O sarcasmo dera lugar à ternura; a sátira, à compaixão. Era o mesmo homem, mas transfigurado pela dor e pela memória.

Um conservador sem dogmas

Wenceslao Fernández Flórez era um conservador moral, não ideológico. Defendia o equilíbrio e a lucidez sobre o fanatismo e as barricadas. Em Portugal, aprendeu o poder da contenção e a dignidade do silêncio. O exílio, longe de o quebrar, transformou-o num escritor mais humano.

Morreu em Madrid, em 1964, discreto e respeitado. O tempo quase o apagou, mas a sua história continua a merecer ser contada. Porque nem todos os exilados voltam com glória, e nem todos os sobreviventes se tornam heróis. Wenceslao Fernández Flórez foi apenas um homem que usou o humor para resistir à loucura — e que encontrou, em Portugal, o refúgio que a Espanha lhe negara.

Por Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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