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Imagine-se uma família comum. Dois cônjuges, dois empregos, destinos diferentes e horários desencontrados. Hoje, essa família precisa de dois carros. Dois seguros, dois impostos, duas manutenções, dois créditos automóveis e dois problemas de estacionamento. Amanhã, com um veículo autónomo devidamente legislado, o cenário muda radicalmente. O carro leva um cônjuge ao trabalho, regressa a casa e, pouco depois, transporta o outro. Um só automóvel substitui dois. A poupança mensal é evidente. A médio prazo é esmagadora. À escala nacional, o impacto económico seria profundo.
Isto não é futurologia. Em Los Angeles, serviços associados à Uber já operam veículos sem condutor humano em contexto urbano real, com passageiros reais, todos os dias. O mesmo sucede noutras cidades dos Estados Unidos e da Ásia. Na China, a cidade de Shenzhen opera linhas de metro totalmente automatizadas, sem maquinista, transportando milhões de passageiros em segurança todos os meses. O sistema funciona porque existe enquadramento legal, investimento público e visão estratégica.
A indústria automóvel percebeu esta mudança antes de muitos governos europeus. Marcas como a XPeng apostam numa nova geração de veículos eléctricos e inteligentes a preços acessíveis, entre os 18 000 e os 24 000 euros. Não se trata de automóveis de luxo para elites urbanas. São carros pensados para a classe média, equipados com sistemas avançados de condução assistida e preparados para níveis crescentes de autonomia. Com escala, concorrência e legislação adequada, estes valores podem tornar-se comuns no mercado europeu.
Se o Governo português tiver visão e coragem política para ir além das pequenas reformas anunciadas, se perceber que o futuro não passa apenas por ajustes tarifários no transporte público, mas por uma transformação estrutural da mobilidade, então Portugal pode ganhar uma vantagem inesperada. Legislar para permitir automóveis conduzidos por IA não é favorecer multinacionais tecnológicas. É aliviar o orçamento das famílias, reduzir o número de veículos por agregado, diminuir o trânsito, baixar emissões e libertar tempo e recursos.
A questão central é simples. Queremos continuar a gerir o século XXI com leis pensadas para o século XX ou queremos preparar o país para o que já está a acontecer no mundo real. A mobilidade autónoma não elimina empregos de um dia para o outro, não substitui o transporte público e não resolve todos os problemas. No entanto, cria opções. E opções significam liberdade económica.
Um dia, mais cedo do que muitos pensam, a frase deixará de soar a brincadeira publicitária e tornar-se-á rotina quotidiana. “Ambrósio, leve-me ao destino.” Quando isso acontecer, não será mérito da tecnologia, que já existe. Será mérito, ou responsabilidade histórica, de quem hoje decide se Portugal quer liderar, acompanhar ou ficar para trás.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, historiador e autor
Publicado pelo iPressJournal.pt
