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Tempestades extremas expõem fragilidades em Portugal: a natureza é parte da solução

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As tempestades intensas que têm afetado Portugal, como a recente depressão Kristin, evidenciam o aumento da frequência e da intensidade de fenómenos meteorológicos extremos associados às alterações climáticas. No entanto, estes impactos são agravados por práticas humanas que fragilizam os sistemas naturais. Estas práticas também reduzem a capacidade de resposta do território. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, em articulação com a BirdLife, alerta para a urgência de adotar soluções baseadas na natureza. Esta abordagem é vista como uma forma eficaz de mitigar riscos e proteger populações, infraestruturas e biodiversidade. Importa referir que tempestades extremas em Portugal e soluções baseadas na natureza são assuntos indissociáveis no contexto das alterações climáticas.

Portugal tem registado episódios cada vez mais frequentes de precipitação extrema e ventos intensos, com consequências significativas para as comunidades e para os ecossistemas. Estes fenómenos estão alinhados com as projeções científicas que apontam para eventos meteorológicos mais intensos. Contudo, esses eventos também são mais imprevisíveis e concentrados no tempo, como resultado direto das alterações climáticas, o que demonstra a relação entre tempestades extremas em Portugal e soluções baseadas na natureza.

Para além do fator climático, a ação humana tem desempenhado um papel determinante no agravamento destas vulnerabilidades. A impermeabilização generalizada dos solos nas áreas urbanas, a destruição progressiva de zonas húmidas e a canalização artificial de cursos de água eliminaram a capacidade natural de absorção e retenção da água. Esta transformação do território compromete a resiliência dos ecossistemas. Além disso, aumenta de forma significativa o risco de cheias e inundações.

Segundo Pedro Neto, Diretor Executivo da SPEA, a forma como o território tem sido gerido, sobretudo nas cidades, reduziu drasticamente a capacidade de resposta dos sistemas naturais. As tempestades não podem ser evitadas. No entanto, os seus efeitos podem ser atenuados. Isto pode acontecer se forem adotadas soluções que trabalhem em articulação com a natureza, em vez de a contrariar. Por isso, tempestades extremas em Portugal e soluções baseadas na natureza devem ser consideradas conjuntamente em todas as políticas públicas.

A impermeabilização urbana surge como um dos principais fatores de risco. A substituição de solos naturais por betão e asfalto impede a infiltração da água da chuva. Além disso, sobrecarrega os sistemas de drenagem e transfere o problema para jusante, agravando as inundações. A destruição de zonas húmidas, que funcionam como esponjas naturais, elimina um dos mecanismos mais eficazes de regulação hídrica do território.

Outro problema estrutural prende-se com a gestão inadequada da arborização urbana. Em muitos municípios, as podas camarárias são realizadas de forma excessiva ou sem critérios técnicos adequados. Longe de protegerem as árvores ou aumentarem a segurança, estas intervenções fragilizam-nas. Ademais, as podas severas criam feridas de grandes dimensões, difíceis de cicatrizar, que funcionam como porta de entrada para agentes patogénicos. Isso favorece o apodrecimento do tronco e aumenta o risco de queda em situações de vento forte.

A SPEA defende que a resiliência face a eventos extremos depende de uma mudança clara de paradigma, assente em soluções baseadas na natureza. A valorização de espaços verdes urbanos, o restauro ecológico de ribeiras e margens fluviais e uma gestão qualificada da arborização são abordagens mais eficazes, duradouras e economicamente sustentáveis. Isto é, são melhores do que intervenções artificiais ou reativas. Aliás, tempestades extremas em Portugal e soluções baseadas na natureza estão interligadas quando se pretende mitigar os efeitos das alterações climáticas.

O aumento e a qualificação dos espaços verdes urbanos contribuem para a permeabilidade dos solos, facilitam a retenção e o escoamento natural da água e reduzem a severidade das inundações em zonas densamente urbanizadas. Parques, jardins e corredores verdes desempenham igualmente um papel relevante na regulação térmica das cidades.

O restauro ecológico de ribeiras e margens fluviais, em contextos urbanos e periurbanos, permite recuperar a capacidade natural de armazenamento de água. Além disso, reduz a erosão dos solos e cria corredores ecológicos. Estes espaços verdes lineares são fundamentais para a biodiversidade urbana, incluindo insetos polinizadores e aves comuns. Além disso, contribuem para a melhoria da qualidade de vida nas cidades.

A gestão responsável das árvores de rua deve basear-se no planeamento adequado da arborização urbana, com a escolha criteriosa das espécies, adaptadas ao espaço disponível e às condições locais. Árvores saudáveis, com copas e sistemas radiculares equilibrados, ajudam a regular a temperatura, a atenuar ventos fortes e a proteger pessoas e bens. No entanto, árvores debilitadas, mal tratadas ou sujeitas a podas abusivas produzem o efeito inverso. Assim, tempestades extremas em Portugal e soluções baseadas na natureza tornam-se imprescindíveis para a segurança das cidades.

A SPEA alerta que a redução artificial das copas não deve ser encarada como uma medida eficaz de prevenção de riscos. Uma abordagem verdadeiramente preventiva passa por critérios técnicos e científicos, garantindo árvores mais resilientes, seguras e integradas no tecido urbano.

A organização está envolvida em diversos projetos de conservação e restauro ecológico em Portugal continental, na Madeira e nos Açores. Estas iniciativas incluem a reabilitação de zonas húmidas costeiras, a recuperação de turfeiras com elevada capacidade de retenção de água, o desenvolvimento de Santuários para as Aves e a monitorização de espécies como indicadores do estado de saúde dos ecossistemas.

Em contexto de alterações climáticas, a mensagem é clara: reforçar a resiliência do território passa por reconhecer que a natureza não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas uma parte essencial da solução.

Publicado pelo iPressJournal.pt

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