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A criação de tecidos humanos em laboratório está a transformar a medicina reprodutiva e a abrir novas janelas de esperança para mulheres com infertilidade causada por tratamentos oncológicos ou doenças uterinas. No 81.º Congresso da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, realizado em San Antonio (Texas), investigadores de Valência apresentaram avanços significativos em bioengenharia aplicada à preservação da fertilidade e regeneração uterina.
Os dois estudos, liderados pela Dra. Irene Cervelló, do Instituto de Investigação em Saúde do Hospital La Fé (IIS La Fe) e da Fundação IVI, mostram que já é possível criar réplicas tridimensionais de ovários e endométrio humanos, reproduzindo a estrutura e a função dos tecidos naturais.
Réplicas de ovários humanos recriam função e fisiologia
O primeiro trabalho demonstra que é possível gerar modelos laboratoriais de ovários a partir de tecido criopreservado de pacientes que preservaram a fertilidade antes de iniciarem tratamentos oncológicos. Estes modelos permitem estudar a fisiologia ovárica, testar a toxicidade de fármacos e desenvolver terapias personalizadas para restaurar a fertilidade em mulheres cujos ovários foram afetados por quimioterapia ou radioterapia.
Segundo a Dra. Cervelló, “este avanço representa um passo decisivo na medicina reprodutiva e na criação de soluções regenerativas e personalizadas para mulheres com disfunção ovárica”.
Regeneração do endométrio abre novas possibilidades clínicas
O segundo estudo incidiu sobre réplicas de endométrio, combinadas com hidrogéis biocompatíveis que imitam a matriz extracelular. Testadas em modelos animais, estas réplicas aumentaram a espessura do endométrio, estimularam a formação de glândulas e vasos sanguíneos, reduziram a fibrose e a morte celular, aproximando o tecido regenerado do padrão saudável.
A investigação abre novas vias de tratamento para síndrome de Asherman, endométrio fino e atrofia endometrial, condições que frequentemente provocam infertilidade. “O endométrio é fundamental no processo de fertilidade, pois adapta-se em cada ciclo menstrual para permitir a implantação do embrião e o desenvolvimento da gravidez”, explica a investigadora.
Avanços apontam para terapias personalizadas
Para a Dra. Sofia Nunes, diretora do Laboratório de Fertilização In-Vitro do IVI Lisboa, estes resultados “reforçam uma nova visão sobre o futuro da medicina reprodutiva”.
Na sua opinião, “a capacidade de regenerar tecidos essenciais da fertilidade representa não apenas uma oportunidade para restaurar a função reprodutiva, mas também um avanço na forma como compreendemos e tratamos as condições que afetam ovários e útero”.
Estes progressos consolidam o papel da bioengenharia como ferramenta-chave na medicina personalizada, abrindo caminho para soluções inovadoras e seguras no tratamento da infertilidade feminina.





