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IA reforça estereótipos de género entre jovens e rotula raparigas como “frágeis” em mais de metade dos casos

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Um relatório internacional conclui que os modelos de inteligência artificial analisados reproduzem padrões de desigualdade de género nas respostas dirigidas a jovens. Um estudo revela que inteligência artificial reforça estereótipos de género, demonstrando a necessidade de reflexão sobre estes impactos.

Estudo analisa impacto da IA nas perceções dos jovens

Um estudo internacional revela que a inteligência artificial pode estar a reforçar estereótipos de género nas interações com jovens. O relatório “A miragem da IA, um reflexo incómodo com alto impacto nos jovens”, elaborado pela consultora LLYC, analisou quase dez mil recomendações geradas por modelos de linguagem.

A investigação incidiu sobre respostas produzidas por cinco grandes sistemas de inteligência artificial, entre os quais ChatGPT, Gemini e Grok. O estudo foi realizado em 12 países durante 2025 e centrou-se em jovens entre os 16 e os 25 anos.

Segundo o relatório, 56 % das respostas analisadas classificam as jovens como “frágeis ou fracas”. Além disso, os algoritmos recomendam às mulheres procurar validação externa seis vezes mais do que aos homens.

O estudo indica ainda que as respostas direcionadas a raparigas tendem a privilegiar vocações ligadas às ciências sociais e à saúde. Em contrapartida, os jovens do sexo masculino são mais frequentemente encaminhados para áreas como engenharia ou resolução de problemas.

Algoritmos adotam linguagem emocional distinta para mulheres

Uma das conclusões do relatório refere que a inteligência artificial assume frequentemente um tom diferente nas interações com jovens de géneros distintos.

Nas respostas dirigidas a mulheres, os modelos utilizam com maior frequência expressões de empatia ou personificação, como “eu entendo-te”. Este tipo de formulação ocorre cerca de 2,5 vezes mais do que nas respostas dirigidas a homens.

Além disso, cerca de um terço das respostas dirigidas a jovens mulheres apresenta um tom de “amizade”, padrão 13 % mais frequente do que nas interações com homens.

Já nas respostas dirigidas a jovens do sexo masculino, a linguagem tende a ser mais direta e orientada para a ação, com recurso a imperativos como “faz”, “diz” ou “vai”.

Para Luisa García, sócia e CEO global de Corporate Affairs da LLYC e coordenadora do estudo, os resultados refletem padrões sociais existentes.

Segundo a responsável, a inteligência artificial não corrige automaticamente desigualdades presentes na sociedade, podendo antes reproduzir e amplificar preconceitos históricos.

Tendência para reforçar papéis profissionais tradicionais

O relatório conclui também que os algoritmos podem influenciar a forma como os jovens percecionam escolhas profissionais.

Em vários cenários analisados, as mulheres são direcionadas até três vezes mais para áreas como saúde ou ciências sociais. Por outro lado, os homens são mais frequentemente associados à liderança ou à engenharia.

Em nove de cada dez consultas em que as mulheres surgem em minoria profissional, os sistemas analisados apresentam cenários de trabalho descritos como hostis ou adversos.

Além disso, quando uma mulher é descrita como tendo um rendimento superior ao de um homem, a resposta da IA tende a classificá-lo como “impressionante”. Esta reação não se repete no sentido inverso.

Diferenças também surgem na abordagem à aparência e bem-estar

O estudo identifica igualmente diferenças nas respostas relacionadas com aparência e identidade pessoal.

Quando confrontada com inseguranças, a inteligência artificial responde com conselhos de moda 48 % mais vezes às mulheres do que aos homens. Em modelos de código aberto como LLaMA, as referências à aparência feminina são cerca de 40 % superiores.

Por outro lado, os homens recebem recomendações para praticar exercício físico com maior frequência. Em situações de rutura emocional, os algoritmos aconselham ir ao ginásio até duas vezes mais aos homens do que às mulheres.

Dependência crescente de chatbots entre adolescentes

O relatório alerta ainda para a crescente influência dos sistemas de inteligência artificial na vida quotidiana dos jovens.

Segundo dados citados de um relatório da organização Plan International, 31 % dos adolescentes afirmam que conversar com um chatbot é tão ou mais satisfatório do que falar com um amigo real.

Neste contexto, os investigadores alertam que os sistemas de inteligência artificial podem assumir um papel de conselheiro informal na formação de identidades, ambições e perceções sociais.

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