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A segunda edição do Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas confirma o impacto crescente da geopolítica na estratégia empresarial em Portugal. O estudo é promovido pelo Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School e reforça a centralidade do tema nas decisões das organizações. Questões como a ameaca hibrida e risco geopolitico nas empresas portuguesas tornam-se cada vez mais relevantes na actualidade, sendo essencial analisar o impacto da ameaca hibrida e risco geopolitico nas empresas portuguesas.
Entre os riscos considerados mais elevados, a curto e médio prazo, destacam-se os ciberataques de grande dimensão, enquadrados numa lógica de ameaça híbrida, a crise financeira e a disrupção das cadeias de abastecimento. Esta última sobe ao terceiro lugar, enquanto os conflitos comerciais entre Estados Unidos, China e União Europeia descem para o quinto lugar.
Ciberataques e crise financeira lideram preocupações
A competição geopolítica surge como um dos principais vetores de risco. Manifesta-se sobretudo através do receio de ciberataques de grande dimensão a infraestruturas críticas ou empresas, num contexto de guerra híbrida com patrocínio estatal. Este risco é classificado como elevado por 63 % dos inquiridos.
O estudo admite o cruzamento entre riscos cibercriminais e riscos estritamente geopolíticos, o que justifica a sua posição de liderança a um e três anos. Além disso, mantém-se uma apreensão expressiva de que a crescente corrida geopolítica possa gerar instabilidade suficiente para desencadear uma nova crise financeira.
Este risco é apontado como elevado por 58 % dos respondentes. A crise de dois mil e sete continua a ser referência negativa marcante no imaginário empresarial. Assim, a instabilidade internacional é percecionada como fator capaz de provocar perda de confiança nos mercados, restrição de crédito e quebras no investimento.
Conflitos intraeuropeus e cadeias de abastecimento sob pressão
O receio de conflitos intraeuropeus assume particular relevância nesta edição do Barómetro. Quer na vertente cinética, quer no domínio das ameaças híbridas, este risco é considerado elevado por 63 % das empresas no curto prazo e por 53 % no médio e longo prazo.
Por outro lado, a eventual disrupção das cadeias de abastecimento integra o top três das maiores preocupações. É identificada como risco elevado por 55 % dos inquiridos. Esta perceção surge em estreita ligação com a atuação da nova administração norte-americana e com o chamado “efeito Trump”.
Segundo Jorge Rodrigues, co-coordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, a adaptação das empresas à expressão “Trump Always Chickens Out” poderá explicar a descida dos conflitos comerciais para a quinta posição. No entanto, o responsável alerta que o cenário poderá alterar-se, sobretudo em riscos mais complexos, como o programa nuclear do Irão ou a crise de Taiwan.
Tecnologia e desinformação com menor destaque
De forma surpreendente, a negação do acesso à tecnologia surge apenas nas oitava e sexta posições a um e três anos. Contudo, no atual contexto de competição geoeconómica, este risco pode revelar-se estrutural, dependendo do setor de atividade.
Além disso, a desinformação associada à Inteligência Artificial ocupa a nona posição. Este dado pode indicar uma eventual subavaliação dos riscos informacionais num ambiente digital cada vez mais exigente.
Empresas exportadoras mais expostas
O Barómetro revela um agravamento da perceção de risco entre empresas exportadoras e importadoras relativamente à disrupção das cadeias de abastecimento. Neste segmento, 72 % classificam este risco como elevado. O top três completa-se com os ciberataques e a crise financeira.
Em contraste, nas empresas com investimento direto no estrangeiro, a disrupção logística não integra os três principais riscos de gestão identificados a três anos. Ainda assim, a instabilidade geopolítica traduz-se numa elevada incerteza no comércio internacional, sentida com maior intensidade pelas organizações mais expostas aos mercados externos.
Na indústria transformadora, a disrupção das cadeias de abastecimento surge como principal preocupação, seguida dos ciberataques e dos conflitos na Europa. Já no setor financeiro e segurador, destaca-se uma elevada perceção de risco associada às questões energéticas.
Parcerias estratégicas como principal resposta
Quanto às estratégias de mitigação, as empresas privilegiam parcerias estratégicas, referidas por 44 % dos inquiridos. Seguem-se tratados multilaterais, reforço da capacidade interna de investigação e desenvolvimento e melhoria da preparação geopolítica.
Segundo Jorge Rodrigues, o setor empresarial pretende reforçar competências próprias e meios endógenos, não ficando apenas dependente do Estado. Apesar disso, mantém-se a convicção de que tratados internacionais podem contribuir para maior estabilidade.
O inquérito decorreu entre oito e vinte de dezembro de dois mil e vinte e cinco. Após tratamento estatístico, foram considerados trezentos e trinta inquéritos válidos, abrangendo empresas com operação nacional e internacional.
